A esperança desprezada

Esperança é a crença na possibilidade de que aconteça algo que se deseja, mas que ainda não é uma realidade. Há quem diga que ter esperanças é uma tolice, pois é preciso ser sempre realista. O fato é que do ponto de vista econômico a esperança é um ativo importante, que mantém as pessoas de pé em meio a tantos problemas financeiros. Uma pergunta! Onde está nossa esperança?

Em um país devastado por anos de crise política com graves ataques a economia, o Brasil deu um show de descaso com seu povo durante a pandemia, sem levar em consideração que para se viver de maneira minimamente digna é preciso considerar os recursos financeiros. A verdade é que não soubemos lidar de maneira equilibrada com as adversidades, priorizamos protocolos sanitários em detrimento do equilíbrio financeiro da nação, lembremos que a dignidade da pessoa humana precisa de recursos financeiros para se manter, essa é a regra.

O saldo negativo tem números assustadores que nos levam a repensar as decisões tomadas nos últimos anos. A taxa de desemprego no Brasil ficou em 14,1% no 2º trimestre de 2021, mas ainda atinge 14,4 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sendo assim, voltemos a nossa esperança.

O problema é sério e demanda solução em várias frentes, prioritariamente utilizam o auxilio financeiro como uma medida necessária, apesar de várias ressalvas sobre isso, é preciso ressaltar que auxilio financeiro não passa de uma medida paliativa. A solução para crise econômica demanda uma modificação em sua estrutura.

Com a taxa de desemprego em alta os brasileiros automaticamente buscaram alternativas de negócios no vasto mundo da informalidade. Acontece que esse mundo de negócios informais tem como principal característica quase que o total abandono do poder público, que além de não incentivar (pois não gera arrecadação) acaba impedindo que eles prosperem.

Há um lapso de memória, pois algumas das grandes empresas do país surgiram assim, na informalidade, sejam elas um grande comercial varejista ou um fabricante de ferramentas, não importa, a verdade é que elas venceram esse gigante chamado Estado.

Indo diretamente no cerne da questão é que não adianta um Estado forte e hipertrofiado com uma economia dependente e atrofiada. Manter o Estado é caro e com baixa efetividade, não é possível manter toda uma nação pelo Estado, por isso a discórdia com aqueles que querem o Estado como um mero distribuidor de riquezas, eles não consideram a parte dos recursos que ficam no caminho.

Para bancar a máquina Estatal ainda esbarramos nos entraves burocráticos impostos pelo mesmo elevando ao máximo o conceito de que além de não ajudar e promover o Estado atrapalha e exclui o surgimento de novos negócios, para isso temos um show de impostos, taxas, alvarás e licenças. E nessa dinâmica de promover algum incentivo, liberam linhas de crédito para grandes corporações de capital aberto que negociam suas ações na bolsa de valores gerando a falsa sensação de liberdade econômica, falsa sim, pois a verdadeira liberdade econômica se dá de modo irrestrito, sem qualquer seletividade e para isso é uma política pública onde consequentemente o Estado se apequena.

Recentemente em outubro de 2021, viralizou a imagem de pessoas coletando comida em um caminhão de lixo na cidade de Fortaleza/CE, lembremos dos 14 milhões de desempregados que aguardam ansiosamente a abertura de oportunidades de trabalho e que talvez estejam sufocados pelo próprio Estado que se coloca com inimigo do empreendedorismo.

Portanto, é medida efetiva e eficaz que se incentive o empreendedorismo livre, é necessário um olhar cuidadoso do poder público, deixando o caminho livre através de várias ações incentivarem o surgimento de novos negócios, pois assim, veremos a Maria que faz bolo vendendo na esquina de casa que depois viu a necessidade de empregar João para expandir seu negócio, e hoje os dois são sócios em uma padaria que alimenta o bairro inteiro e que agora emprega, o José padeiro, Julia atendente e o Carlos que organiza o estoque, assim são cinco famílias independentes do Estado, caso contrário teremos que lidar mais vezes com cenas de pessoas catando lixo, como se fosse um texto fictício de Manuel Bandeira, minha esperança é que não seja um homem, meu Deus, e sim um bicho:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira (1947)

 

 Gessy Karla Lima Borges Fonseca, empresária e secretária de economia solidária de Teresina – PI;

Anderson Emanuel Abreu Pereira, advogado pós graduado em direito público e especialista em gestão pública.

 

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