A Índia no realinhamento das grandes potências

I.

Para quem está acostumado a considerar a longa amizade entre Moscou e Nova Delhi como uma das mais sólidas características do cenário internacional do pós-Segunda Guerra, chega a ser surpreendente a admoestação que o primeiro-ministro Narendra Modi dirigiu recentemente ao presidente Vladimir Putin. Em meados de setembro, durante conferência de cúpula da Organização Xangai de Cooperação (Shanghai Cooperation Organization — SCO), realizada em Samarkand, sudeste do Uzbequistão, Modi, diante dos microfones e câmeras mundiais, disse ao líder russo: “A era, hoje, não é uma era de guerra” — óbvia crítica à invasão da Ucrânia pela Rússia já chegando ao seu oitavo mês.

Naquela mesma conferência, Modi não se reuniu nem teria pedido para se reunir com o presidente da República Popular da China e secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, um ‘não gesto’ que se reveste de significado especialmente sério quando se dá como certa a recondução de Xi a um inédito terceiro mandato à frente do Império do Meio.

Esses episódios traduzem mudanças significativas não apenas na dinâmica bilateral Índia-Rússia, mas também do novo status internacional que a Índia vai conquistando. Mesmo assim, fatores de continuidade também marcam sua presença duradoura nessa equação geopolítica.

Desde sua independência até o final do século passado, a Índia se mantém como firme parceira da antiga União Soviética, dela importando quase todos os seus armamentos, recebendo fortes investimentos em infraestrutura e decalcando sua política econômica nos dogmas da planificação central comunista. No marco histórico da Guerra Fria, o sistema de alianças na Eurásia e no Indo-Pacífico assumiu a seguinte configuração: de um lado, União Soviética-Índia; do outro, Estados Unidos-Paquistão (tradicional adversário islâmico dos hindus)-China (da qual os americanos se aproximaram a partir da década de 1970, de modo a explorar a rivalidade sino-soviética).

Há 60 anos uma guerra-relâmpago China X Índia, na gélida cordilheira do Himalaia, resultou na anexação à RPC do território de Aksai Chin, na região de Ladakh, e de grande fatia de Arunachal Pradesh, região do noroeste da Índia, a qual os chineses insistem em considerar parte da “região autônoma” do Tibete. Novos choques ocorreram em 1967, 1987 e, mais recentemente, em junho de 2020, ocasião do primeiro embate dos dois países com vítimas fatais em 45 anos.

Em minucioso e bem documentado artigo para o Carnegie Endowment for International Peace, prestigioso think tank de Washington, D.C., os pesquisadores Rajan Menon e Eugene Rumer reconstituem o desenrolar desse complicado jogo de xadrez internacional, entre o fim da Guerra Fria e a invasão da Ucrânia. Vamos acompanhá-los nos pontos principais do seu estudo.

II.

Ainda hoje, 85% do equipamento das forças armadas indianas provêm da União Soviética/Rússia, resultado de longas décadas de dependência de Nova Delhi em face dos fornecimentos de Moscou: blindados, mísseis, aviões de caça e transporte militar e peças de reposição. Uma dependência perenizada pelo regular envio de oficiais indianos para treinamento nas academias militares soviéticas e russas. Durante as mais de três décadas seguintes ao fim da Guerra Fria, a Índia comprou da Rússia dois terços dos seus armamentos, com destaque para os tanques T-72 e T-90S, jatos MIG-21, MIG-29 e Su-30, o único porta-aviões e um submarino de propulsão nuclear.

Nos últimos 20 anos, os dois países assinaram mais de meia centena de contratos de transferência de tecnologia e licenças para produção de mísseis terra-terra e antinavio; lançadores de foguetes múltiplos, fragatas, aeronaves antissubmarino etc. Nem mesmo uma lei dos Estados Unidos de 2017 destinada a castigar os russos pela anexação da Crimeia (2014) e seus parceiros militares, dissuadiu as forças armadas indianas de continuar seus negócios com a Rússia. Na verdade, dois anos após a anexação, os dois países celebraram novo acordo para vender à Índia o sistema S-400 de defesa aérea.

III.

O explosivo crescimento do PIB indiano desde os anos 90, quando o país se livrou de tradição de política externa estatizante e mercantilista para abraçar a abertura ao mercado internacional, coincidiu com o encolhimento da importância geopolítica e econômica da Rússia em consequência da implosão do comunismo e do estilhaçamento do antigo império soviético. Com isso, inverteram-se as posições de parceiro-júnior e parceiro-sênior, fazendo murchar o comércio, armamentos à parte.

Números de 2020 revelam que as exportações russas à Índia não chegaram a totalizar US$ 6 bilhões (principalmente carvão, com US$ 923 milhões); no mesmo período, o valor das vendas indianas foi inferior a US$ 3 bilhões (principalmente medicamentos, com US$ 444 milhões). Enquanto isso, a corrente de comércio (exportações + importações) Índia-Estados Unidos atingiu a marca dos US$ 120 bilhões. A corrente Rússia-China superou os US$ 100 bilhões. O volume de investimentos diretos russos na Índia durante as duas últimas décadas também empalideceu em contraste com os americanos, que, no mesmo período, pularam de US$ 1,26 bilhão para US$ 42 bilhões.

Mais recentemente, porém, a guerra na Ucrânia abriu uma janela de oportunidade para as exportações energéticas russas à Índia e também à China, aliviando o impacto negativo das sanções econômicas e dos limites de preços impostos pelos Estados Unidos e seus aliados em represália à invasão. Indianos e chineses, que se recusaram a condenar a ação militar russa, aproveitam para abastecer, com desconto, suas gigantescas máquinas econômicas. A Índia ocupa o terceiro lugar mundial em consumo de petróleo, importando 85% das suas necessidades. Do ano passado a meados deste ano, suas compras de petróleo russo saltaram de 50 mil para 1 milhão de barris por dia!

IV.

Novos alinhamentos relativizaram e alteraram aquela constelação de alianças estratégicas vigente na segunda metade do século XX. O gelo nas relações Índia-Estados Unidos começou a ser quebrado com a visita de Bill Clinton em 2000, sublinhando a reorientação econômica de Nova Delhi. Quase simultaneamente, a crescente projeção internacional da China, resultante do seu espantoso ritmo de crescimento econômico foi azedando as boas relações entre Pequim e Washington. E desde o advento das reformas de Mikhail Gorbachev, quando o comunismo soviético já estertorava, as relações sino-russas ingressaram em uma etapa de desanuviamento. O ponto mais alto dessa etapa foi, sem dúvida, a visita de Putin a Xi Jinping dias antes da invasão da Ucrânia. Na ocasião, os dois governantes proclamaram ao mundo a “amizade ilimitada” entre seus países.

O realinhamento impactou também a posição internacional do Paquistão. Obrigados a prestigiar o governo de Islamabad em face das vicissitudes dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e da guerra no Afeganistão, os Estados Unidos continuaram a se preocupar com o empenho paquistanês em obter armas nucleares do seu papel dúbio na luta dos americanos contra o Talibã afegão. E os laços do Paquistão com a China se solidificaram na proporção dos investimentos de Pequim em infraestrutura, dada a localização privilegiada do Paquistão na projetada nova rota da seda, a iniciativa que os chineses batizaram de “Um Cinturão, Uma Estrada”.

V.

A longo prazo, é possível prever rearranjos que venham a colocar a Índia e os Estados Unidos em rota de colisão com os interesses do triângulo Pequim-Moscou-Islamabad, mas o bom senso também aconselha uma cuidadosa ponderação dos fatores de continuidade presentes no relacionamento entre a Índia e a Rússia, principalmente na área militar. Como já vimos, não dá para desconsiderar a durabilidade desse vínculo. É certo que o ano de 2013 correspondeu ao pico dos fornecimentos de material bélico russo aos indianos, e que, daí em diante, a concorrência de indústrias americanas, francesas e israelenses aumentou, graças aos interesses de Nova Delhi em diversificar suas fontes de abastecimento. Contudo, é improvável que esquemas de transferência de armamentos e tecnologias militares sejam abandonados e substituídos do dia para a noite.

Basta recordar que, em 1971, a União Soviética e a Índia celebraram um Tratado de Paz, Amizade e Cooperação poucos meses antes do começo da guerra indo-paquistanesa, e esse pacto foi interpretado em Washington e Pequim como uma frente para frustrar os interesses chineses e americanos. Oito anos depois, quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, essa intervenção militar foi condenada, ao mesmo tempo, pela China e pelos Estados Unidos, enquanto a Índia, escorada na tradição de “neutralismo” e “não alinhamento” da sua política externa, absteve-se de criticar aquela invasão. Cinquenta anos mais tarde, em dezembro de 2021, quando Putin visitou a Índia, os dois países reafirmaram sua “parceria estratégica especial e privilegiada”.

VI.

A ascensão indiana ao status de grande potência econômica se desenvolve contra um pano de fundo de múltiplos desafios, entre os quais: as relações cada vez mais próximas entre Pequim e Moscou à medida que Putin queima pontes com o Ocidente; e o adensamento das interações militares de Nova Delhi no marco do Diálogo de Segurança Quadrilateral, o Quad, formado por Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia, com o objetivo primordial de conter a expansão chinesa no Indo-Pacífico.

A par de requerer da Índia um milimétrico exercício de equilíbrio entre interesses concorrentes, esse contexto de transformações infunde revigorada atualidade em suas reivindicações históricas, como a de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

 

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