China: a anglosfera reage

EM MEADOS DE setembro, por ocasião do anúncio público do AUKUS, novo pacto de segurança e defesa indo-pacífico entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália, o governo de Canberra, chefiado pelo primeiro-ministro Scott Morrison, denunciou contrato para a compra de uma frota de submarinos diesel-elétricos franceses (classe “Barracuda”, que é nuclear somente para a armada da França) — negócio que, em 2016, havia sido avaliado num total de 40 bilhões de dólares, dos quais os franceses parecem já ter gasto 8 bilhões de euros. A Austrália vai trocá-los por, no mínimo, oito submarinos de propulsão nuclear com tecnologia norte-americana e britânica.

A reviravolta enfureceu o governo do presidente Emmanuel Macron, que busca reeleger-se no próximo ano e agora procura tirar proveito do episódio apelando para a tradicional rivalidade franco-americana. (Pela Constituição da Vª República Francesa, ao chefe de Estado estão diretamente afetas as áreas de política externa e defesa.) A imprensa do país chegou a usar a expressão “punhalada pelas costas”, e o ministro das Relações Exteriores, Jean-Pierre Thébault, chamou “para consultas‟ em Paris o embaixador Jean-Yves LeDrian. Segundo a agência de notícias Reuters, esta é a pior crise nas relações bilaterais desde 1995, quando, em protesto contra a retomada dos testes nucleares franceses no Pacífico Sul, a Austrália reconvocou a Canberra seu embaixador em Paris.

A perplexidade também se espalhou entre os governantes e círculos formadores de opinião de outros países da Europa Ocidental, os quais, passado o interregno neoisolacionista do governo Donald Trump, contavam com a disposição do presidente democrata Joe Biden de recompor os laços transatlânticos. O fato precisa ser analisado sob o prisma mais amplo da crescente rivalidade estratégica Washington/Pequim, que, já na reta final da administração Trump, vinha adquirindo a feição de um consenso bipartidário, não importa quão divisivos sejam os demais itens do contencioso — um fosso político/ideológico que não para de se alargar — entre Republicanos e Democratas. Vale lembrar que, na recente reunião do G7, na Cornualha, as notícias de uma conversa entre Biden e o primeiro-ministro britânico Boris Johnson no sentido de ampliar o grupo de modo a incluir a Austrália, a Índia e a Coreia do Sul provocaram certa tensão entre os membros europeus, que recusaram a proposta.

O tempo esquentou mais ainda no mesmo encontro quando americanos, britânicos e japoneses surpreenderam os demais parceiros apresentando o plano “Build Back Better World” (ideia que começara a ser trabalhada na era Trump), para concorrer com a nova Rota da Seda (“One Belt, One Road”), multibilionária iniciativa transnacional chinesa de infraestrutura integrada, e a transmissão da reunião pela internet foi cortada para que o mundo não testemunhasse ao vivo a veemência das discussões. Na sequência, os aliados europeus da coalizão militar liderada pelos Estados Unidos no Afeganistão, também se aborreceram por não terem sido previamente consultados pelo governo americano sobre a retirada de suas tropas em ritmo mais que acelerado. Depois de Trump, o número de militares europeus em solo afegão superou o de tropas dos Estados Unidos. Além da segurança física de seus soldados durante a tomada de Kabul pelas forças do Taleban, esses aliados também se preocupam com as ramificações nocivas desse desfecho na Europa, como tráfico de drogas, terrorismo islâmico e novas ondas de refugiados.

A dura realidade é que, durante quase meio século, desde a memorável viagem de Richard Nixon (1972) a Pequim e sobretudo a partir das reformas pró-mercado lançadas por Deng Xiaoping, o Ocidente em geral e os Estados Unidos em especial investiram no sonho de que a abertura chinesa para o mercado mundial acabaria remodelando o Império do Meio à semelhança das regras do jogo político e econômico liberal-democrático. Não foi outro o raciocínio por trás do apoio dos Estados Unidos ao ingresso da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), o que consolidou a posição desta como usina industrial do mundo e potência exportadora número 1 do planeta. A ascensão de Xi Jinping, líder que passou a concentrar mais poder no Partido Comunista e no Estado chineses desde Mao Zedong, obrigou a liderança ocidental a “cair na real”.

O projeto de Rejuvenescimento Chinês de Xi consiste em impulsionar seu país à supremacia econômica e militar no mundo, sob o comando indiscutível do PCC. Uma pioneira afirmação desse projeto data de muito antes, mais precisamente de meados de 1989, quando, atento ao enfraquecimento político de Mikhail Gorbatchov, que pretendia promover uma liberalização do regime comunista da antiga União Soviética (glasnost) simultânea à reestruturação da economia planificada (perestroika), o governo Deng afogou em um banho de sangue as manifestações oposicionistas na Praça da Paz Celestial. Enriquecimento individual baseado na propriedade privada e no mercado, sim; diluição do monopólio político do Partido Comunista, jamais. Hoje, a militarização chinesa no Mar do Sul da China, região rica por seus recursos naturais e estrategicamente a cavaleiro das mais densas rotas oceânicas; a intensificação de investidas no espaço aéreo de Taiwan; e a escalada repressiva contra os movimentos de protesto em Hong Kong são óbvios passos desse roteiro de projeção externa do poder chinês.

Já o lançamento do AUKUS revela que a repivotagem das prioridades geopolíticas dos Estados Unidos rumo à Ásia-Pacífico estará calcada em uma opção preferencial pela anglosfera, cujo histórico mergulha raízes no final da Segunda Guerra Mundial e no começo da Guerra Fria, quando, sob a orientação de Washington, foi formado o chamado “Five Eyes”, incorporando Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá num arranjo para intercâmbio de inteligência que sobrevive à implosão do império soviético. Agora, pela primeira vez, os Estados Unidos vão transferir tecnologia submarina de propulsão nuclear a outro aliado além dos ingleses.

Mas, no que o episódio da denúncia pela Austrália do contrato dos submarinos com a França importa para o Brasil? Bem, parte da encomenda seria produzida nos estaleiros de Cherboug, mas outra parte caberia ao  Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), cuja sede é o Complexo Naval de Itaguaí (RJ), da Marinha de Guerra brasileira. Da encomenda total de cinco submarinos da classe “Scorpène”, um já está operacional, e fontes dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores acreditam que o contratempo na Austrália seja um novo incentivo para que os franceses acelerem sua cooperação com o Brasil. O Prosub tem como meta máxima a construção do “Almirante Álvaro Alberto”, primeiro submarino nuclear brasileiro. E esta é uma das razões pelas quais o Congresso Nacional aprecia agora a Medida Provisória nº 1049/2021, criando a “Autoridade Nacional de Segurança Nuclear”. O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) proíbe a venda de munição nuclear ou da transferência de tecnologia para fabricá-la, mas permite a da propulsão nuclear. Mas essa é uma outra história, que fica para uma outra vez.

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