CHINA, COLOSSO DEFICITÁRIO EM SOFT POWER

O portal da revista The Diplomat (thediplomat.com), especializada em Ásia e região do Pacífico, acaba de publicar suculenta entrevista da professora Elizabeth Economy, autora, entre outros trabalhos importantes, do recentíssimo The World According to China (Polity Press, 2022). Atualmente licenciada da Hoover Institution (respeitado think-tank conservador na Universidade de Stanford), Economy trabalha como conselheira-sênior do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.

Conversando com Shannon Tiezzi, editora-chefe da revista, Economy focalizou os amplos esforços da China sob Xi Jinping para reconstruir a arquitetura do sistema econômico mundial à imagem e semelhança da visão autoritária e iliberal da liderança do Partido Comunista Chinês, que acaba de completar 100 anos de fundação (1921/2021) e se mantém no poder desde 1949. Desde que assumiu a secretaria geral do partido e a presidência da República Popular da China, em 2013, Xi se empenha, incansável, em estabelecer controle absoluto sobre a economia, a política, a sociedade e a cultura do país, tendo removido em 2018 o limite de dois mandatos, de cinco anos cada, para o exercício de suas funções. Ele considera os Estados Unidos uma superpotência em declínio e vê nisso a grande oportunidade para que a China reescreva as regras que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, pautam, em um sentido liberal, o funcionamento da economia global e das relações internacionais.

Para tanto, Xi Jinping aposta nos dois principais esteios do poder chinês: a expansão econômica e a modernização do Exército de Libertação Popular (forças armadas) — fontes de “poder duro” (hard power), coercitivo, em contraste com o “poder macio” (soft power), derivado da influência exercida por um país na opinião pública internacional em razão da atratividade da sua cultura e do seu dinamismo socioeconômico, na classificação de Joseph S. Nye Jr., professor e pesquisador de Harvard, coautor, com Robert Keohane, do conceito de “interdependência complexa”, no hoje clássico Power and Interdependence (1ª edição: 1977; a 4ª edição, Longman, 2012, é prefaciada pelo jornalista Fareed Zakaria). Para uma panorâmica das preocupações subsequentes de Nye, veja-se, por exemplo, o seu The Future of Power (PublicAffairs, 2011).

Na entrevista, Elizabeth Economy observa que o partido-governo aproveitou o período da pandemia da Covid-19 para “limitar o acesso dos chineses a informações do exterior, insistindo numa falsa narrativa positiva acerca das percepções internacionais da China. Ela crê que, a médio/longo prazo, isso trará consequências adversas ao projeto de Xi, por “limitar sua própria capacidade de tomar decisões bem informadas” e também por trazer “o risco de que”, uma vez encerradas as restrições de viagens de e para a China, “seus cidadãos obtenham uma compreensão mais completa de como o seu país é percebido internacionalmente”.

Ultimamente, vêm-se multiplicando os exemplos dessa desconexão entre a autoimagem oficial e a imagem que os estrangeiros têm do papel internacional da China. Na delicada questão de Taiwan, que Pequim considera uma “província rebelde”, sobre a qual, mais cedo ou mais tarde, a RPC haverá de reafirmar seus direitos soberanos — por meios pacíficos ou não —, a diplomacia chinesa tem colhido dissabores na Europa oriental. Em novembro último, a Lituânia quebrou um costume de décadas permitindo a abertura, em Vilnius (capital do país báltico) a de um escritório semi-diplomático com o nome de Taiwan — e não de sua capital, Taipé, como fazem outros países para não melindrar a China. Na sequência, o governo chinês chamou de volta o seu embaixador em Vilnius e expulsou o embaixador lituano.

Paralelamente, a alfândega chinesa embargou a entrada de 120 contêineres com mercadorias lituanas avaliadas em 1,5 milhão de euros. Na sequência, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Anthony Blinken, e sua colega alemã, Annalena Baerbock, em documento conjunto, externaram sua “imediata preocupação diante das tentativas do governo da China para intimidar a Lituânia”, país membro da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Pouco depois disso, no final de outubro, o Congresso Nacional do Povo chinês condenou a visita oficial do ministro das Relações Exteriores de Taiwan, Joseph Wu, a Praga, a convite do Senado tcheco. A despeito das críticas de Pequim, delegações taiwanesas têm visitado regularmente a República Tcheca desde 2016.

Economy acrescenta que “a conduta chinesa, tanto doméstica quanto externa — sua diplomacia coercitiva, seu comportamento militar assertivo na região do Pacífico [Coreia do Sul, Vietnã, Filipinas e, claro, claro, Taiwan] e seus abusos contra os direitos humanos [ Hong Kong, Xinjiang, Tibete, por exemplo ] —, levou muitos países a repensarem suas políticas em relação à China”. A entrevistada assinala, ainda, que “pesquisas internacionais de opinião revelam níveis inéditos de desconfiança na liderança chinesa e no próprio Xi Jinping. Em vez de convencer os outros países de que a China está pronta para atuar como uma potência global responsável […], Pequim aparentemente estimulou-os a se unir em oposição à sua liderança”.

A leitura da entrevista de Elizabeth Economy convida à conclusão de que as frequentes exibições de “hard power” debilitam o potencial de “soft power” do “império do meio”, abrindo novas oportunidades para que os Estados Unidos revigorem as alianças internacionais criadas e mantidas por cerca de 70 anos graças à sua hegemonia, com o objetivo de frustrar o projeto de uma ordem internacional sinocêntrica que, até agora, tem suscitado mais dúvidas e inquietações do que simpatia e confiança.

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