China: Festina Lente

No Vigésimo Congresso do Partido Comunista Chinês em outubro de 2022, mais importante do que a recondução de Xi Jinping à mais alta posição na hierarquia política chinesa, foi a cristalização de seu firme controle sobre o Partido Comunista, e a consolidação de diretrizes partidárias. Essas diretrizes consistem, no plano interno, na continuidade de medidas econômicas que visam a elevar o padrão de vida da população e, no campo externo, na estratégia de afirmar-se como superpotência capaz de projetar seu poder, econômico e militar, globalmente.

0 sistema político chinês, monolítico, tem mostrado que o Partido Comunista consegue, por meio de grande capilaridade, não democrática, embora eficiente, responder às demandas da população. Os controles sobre o povo são amplos, com uso de tecnologia avançada, mas note-se que os chineses não têm uma tradição de liberdade ou de democracia. Muitos analistas ocidentais têm dificuldade em entender que os chineses possuem parâmetros próprios, distintos dos valores da chamada civilização cristã, democrática e liberal. Uma área de grande contraste entre os valores chineses e ocidentais diz respeito aos direitos humanos e às liberdades individuais.

No plano externo, a China tem mantido postura firme e determinada, sem os avanços e recuos, por exemplo, de seu principal rival, os Estados Unidos. A política externa chinesa, de forma pragmática, tem atuado com cautela e ponderação, enquanto o país consegue consolidar-se como superpotência. A China não faz movimentos açodados que possam comprometer sua caminhada ao status de potência paritária aos Estados Unidos.

Sua posição de prudência e equilíbrio em relação à aliada Rússia reflete a consistência da política externa chinesa. Embora esteja dando apoio à Rússia em relação às sanções ocidentais, a China tem manifestado preocupação com a invasão da Ucrânia, e em momento algum cogitou prestar, ou mesmo oferecer, ajuda militar à Rússia.

Em princípio, à China interessa o enfraquecimento dos Estados Unidos e da OTAN. No entanto, tem mais interesse atualmente no seu intercâmbio comercial com os americanos e europeus. Ademais, a perturbação dos fluxos internacionais de comércio e transporte causados pela guerra na Ucrânia já causa prejuízos aos chineses.

Por outro lado, o crescente isolamento e imagem negativa da Rússia, por causa da violência da guerra, são vistos com reserva pela China, que cada vez mais tem usado o “Soft Power “para disseminar sua influência global.

Em outra vertente, a questão de Taiwan confirma a estratégia chinesa de unir moderação e firmeza. Após as visitas de delegações parlamentares americanas à ilha, e declarações aguerridas do Presidente dos EUA, a China respondeu com intensos exercícios militares ao redor de Taiwan.

No Congresso do Partido Comunista Chinês o presidente Xi Jinping reafirmou que Taiwan é parte inalienável da China. Em passo mais avançado, disse que Taiwan será reintegrada, de preferência por meios pacíficos, mas que não descarta o uso da força, se necessário.

Observe-se que sendo política firmemente estabelecida pelo Partido Comunista e inscrita na própria constituição partidária no Vigésimo Congresso, é de se prever que a anexação de Taiwan poderá ser implementada. No entanto, a China só a tentará quando julgar que a situação é propícia. Não se arriscará a uma ação prematura.

A influência global da China tem crescido, assim como a participação de países emergentes a exemplo da Índia, da Rússia, da Turquia, da Indonésia, do Brasil, do México na economia mundial. Esse aumento da participação dos emergentes ocorre em detrimento da participação da Europa e dos Estados Unidos.

A China tem intensificado suas relações comerciais, tecnológicas e financeiras com esses países emergentes. Tem buscado assumir uma função de liderança econômica em relação aos países em desenvolvimento. Além disso, tem dado atenção à África por meio do programa Belt and Road ou Nova Rota da Seda, de infraestrutura, na busca de garantia de suprimentos.

Essa nova configuração da economia mundial tem dificultado a política americana de contenção da China. Torna-se crescentemente mais difícil para os EUA manterem a hegemonia de que têm desfrutado desde a derrocada da União Soviética no começo da década de 1990.

Dessa forma, com sua política externa afirmativa porém cautelosa, a China parece seguir a expressão latina ” Festina Lente ” – apressa-te lentamente.

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