Uma Perspectiva Conservadora sobre a Independência do Brasil

O evento histórico do “Grito do Ipiranga”, ocorrido em 7 de setembro de 1822, é o marco da Independência do Brasil, cujo protagonismo decisivo, indubitavelmente, foi de Dom Pedro I (1798-1834), o Libertador, sem o qual nossa emancipação política da coroa portuguesa teria acarretado, provavelmente, a ruptura da unidade nacional, tal como ocorreu com os territórios coloniais hispânicos vizinhos de nosso país. De certo modo, foi a condução do processo pelo Príncipe Regente que garantiu a contenção tanto do radicalismo dos grupos revolucionários quanto dos interesses das oligarquias locais.

A história de uma sociedade, entretanto, não é constituída por eventos isolados, sendo um processo complexo. A própria data de nossa independência é um exemplo dessa complexidade, pois o estabelecimento do Sete de Setembro como festa nacional ocorreu apenas com a promulgação de uma lei, em 9 de setembro de 1826, visto que, anteriormente, as datas comemorativas do Império eram o 9 de janeiro, em memória ao “Dia do Fico”, e o 12 de outubro, aniversário de Dom Pedro I e dia em que, no ano de 1822, o monarca foi aclamado como “Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”.

Dentre as análises historiográficas dessa emancipação política, as mais importantes são as elaboradas por Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), Visconde de Porto Seguro, no pioneiro trabalho póstumo “História da Independência do Brasil”, de 1916; Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) no clássico “O Movimento da Independência (1821-1822)”, de 1922; e, finalmente, José Honório Rodrigues (1913-1987) nos cinco volumes de “Independência: Revolução e Contrarrevolução”, de 1972. Essas obras são referências obrigatórias para qualquer pesquisador comprometido com o entendimento do fenômeno.

Acreditamos ser importante, contudo, acrescentar na relação uma obra pouco lembrada pela maioria dos historiadores, que foi escrita no contexto subsequente a tais eventos pelo autor que foi o precursor do conservadorismo no Brasil. Tratam-se dos quatro volumes lançados, respectivamente, nos anos de 1826, 1827, 1829 e 1830, com o título “História dos Principais Sucessos Políticos do Império do Brazil”, por José da Silva Lisboa (1856-1835), Visconde de Cairu. No terceiro volume da obra, além do 7 de setembro, o ilustre conservador destacou, também, as datas de 13 de maio, quando o povo fluminense tomou, em ato de vereação, o acordo de oferecer ao Príncipe Regente o título de Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil, e a de 3 de junho, ocasião em que o futuro monarca assinou o decreto para convocação da assembleia do Brasil, ao afirmar que:

“Achando-se ainda na província de São Paulo, e abrindo os ofícios do ministério, estando nos campos da Piranga, com grande acompanhamento militar e popular, aí imediatamente, em 7 de setembro, fez proclamação vocal de ‘Independência ou Morte’, que foi aplaudida, e seguida de unânime voto do povo, que o aclamou Imperador do Brasil.
Voltando à Corte do Rio de Janeiro, foi universal o entusiasmo dos fluminenses, que não cederam aos paulistas em unanimidade de sentimentos de gratidão ao seu libertador. Eles com soleníssima pompa de todas as ordens do Estado, em 12 de outubro o aclamaram Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.
Pode-se sem hipérbole dizer, que o Senhor D. Pedro de Alcântara nas resoluções de 13 de maio, 3 de junho, e 7 de setembro, completou o triunfo do Brasil”.

Nesse ano do Bicentenário da Independência do Brasil é fundamental relembrarmos as contribuições dos estadistas conservadores que ajudaram a forjar a nação brasileira. Tanto a atuação prática quanto as reflexões do Visconde de Cairu foram de grande importância para a difusão do conservadorismo em nosso país. Todavia, uma parcela significativa dos analistas tende a ressaltar somente os escritos econômicos, políticos e morais de José da Silva Lisboa, não dando a ênfase devida a sua atuação conservadora como historiador, que tinha como principal objetivo colaborar com a manutenção da ordem, da justiça e da liberdade, asseguradas pela autoridade de Dom Pedro I, num contexto no qual os ventos revolucionários poderiam ter rompido a unidade nacional.

 

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